Dança: De quem para quem?
Ana Carolina Mundim: Graduada em Dança pela UNICAMP, Mestre em Artes pela
UNICAMP, Doutoranda em Artes pela mesma Instituição, integrante do GPDT República
Cênica, coordenadora do PADES (Projeto Artístico para o Desenvolvimento Social),
Professora externa da PUC-Campinas - (mundim@iar.unicamp.br)
Publicado no jornal “Ô Sujeito!”, Ano 1, n.1, agosto 2004 (Edição e Produção: Elinaldo
Meira, Jornalista Responsável.: Caio Albuquerque - Mtb. 30356) e site Conexão Dança.
Uma prática comum que temos observado nos espetáculos atuais de dança contemporânea é a dificuldade
de se unir técnica e conceito. É bastante freqüente a predominância de apenas um dos elementos: ou o espetáculo
é extremamente técnico, proporcionando ao espectador somente a apreciação da forma, ou é radicalmente
conceitual, chegando ao limiar do abandono ao aspecto técnico e veiculando-se de um modo quase performático.
Do nosso ponto de vista, a beleza da dança está justamente em conseguir um diálogo no qual a técnica esteja a
serviço do conceito, da mensagem, do contexto, sem que haja abandono de nenhuma das partes envolvidas.
Nossa experiência na área de dança coloca-nos repetidas vezes em contato direto com um público leigo,
interessado e atraído pela percepção corporal sensível que este segmento artístico propõe e que, portanto, seria um
possível “consumidor” de produtos artísticos. No entanto, o que temos observado é que esta hipótese não se
confirma. A dança, muitas vezes, estabelece uma relação com a estética que é admirável, mas que não provoca no
receptor nem um sentimento além da admiração inicial, que se esvai até o fim da apresentação. Nesses casos,
percebemos um desinteresse quando o espetáculo não propõe nada além da técnica, porque somente a apreciação
da forma ocasiona um distanciamento após algumas cenas, em que são detectadas todas as destrezas e virtuoses
que cada bailarino é capaz de executar. O mesmo ocorre quando torna-se apenas conceitual, pois a discussão
proposta fica em um plano tão individual do intérprete, que não é possível (para o público) penetrar em seu
espaço e, novamente, provoca-se o distanciamento. É preciso construir um conceito e se utilizar de ferramentas
para representação que permitam à platéia compartilhar da situação proposta e desfrutar dessa discussão,
participando sensivelmente. Em outras palavras, parecemos estar entrando na velha discussão entre forma e
conteúdo. É necessária uma forma, um código estabelecido, para que o conteúdo se comunique com o receptor, da
mesma maneira em que é necessária uma mensagem, um conteúdo, para que a forma faça algum sentido ao
receptor.
Se um brasileiro vai assistir a um filme e não gosta, não há problemas, pois ele voltará ao cinema para
assistir outros filmes. Por outro lado, se o mesmo ocorre com um espetáculo de dança, raramente existe um
retorno ao teatro. A falta de hábito em assistir espetáculos geralmente causa uma opinião tendenciosa negativa, a
qual se resume em uma frase: "Dança é chato" ou "Não entendo nada". Essas colocações são sintomáticas, pois
englobam na mesma prateleira tudo o que se faz em dança, sem considerar aspectos específicos criativos, técnicos
e de linguagem. Sabemos da necessidade de formar público para a dança e instigar um olhar contemporâneo nesta
área, já que a maioria da população brasileira ainda encara produções artísticas neste contexto como novidade e,
portanto, com ressalvas bem características de processos de inovação, transformação e desenvolvimento.
Sabemos ainda que o ser humano tem a necessidade veemente de obter explicações racionais, lógicas,
determinantes, para tudo que o cerca. Porém, acreditamos também que, quando um espetáculo consegue realizar
uma comunicação sensível com a platéia, esses bloqueios são dissolvidos, pois a emoção e a provocação de
estímulos e imagens recebida, torna-se mais presente do que qualquer outro elemento. A partir de então
comentários como "Gostei" ou "Não gostei", deixam de existir isoladamente e tomam um caráter insignificante
quando passam a se preencher com exposições de sentimentos e reflexões.
Devemos considerar que a dança (que não está inserida na cultura popular) não é um signo tido como
habitual para a população brasileira e que, portanto não é um código comum de comunicação. No entanto, essa
colocação nos faz refletir sobre que dança é essa que fazemos e para que público? Será que temos criado códigos
tão fechados em si mesmos, que eles já não se comunicam mais com pessoas que não sejam de nossa área ou
afins? É possível, mas acreditamos que a dança contemporânea tem caminhado na direção contrária, tentando se
aproximar cada vez mais de um diálogo corpóreo-sensorial, que não passa necessariamente pela comunicação
intelectual, mas principalmente pelo aspecto sensível e participativo. Não a dança "vale tudo", mas a dança
híbrida provida de sentidos (significados e - por que não? - sinestesia). Sabemos que não é possível que o artista
garanta as impressões que o público terá ou de que modo se dará a recepção. E nem é esta a proposta, já que um
dos aspectos mais mágicos da arte é quando ela deixa espaço para que o receptor capte a mensagem a partir de
suas vivências, de sua formação, a partir da óptica que tem do mundo que o cerca. O que propomos com o nosso
trabalho é que o artista-bailarino realize sua obra fazendo com que a estética continue (sim) tendo um papel
fundamental na dança, mas que, acima de tudo, ela esteja a serviço de uma necessidade de comunicação com o
outro, instigando sensações e pensamentos sobre o tema em questão.
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