por Paulina Maria Caon (USP) – comunicação oral
GT – Dança, corpo e cultura
Palavras-chave: educação corporal, mímeses, metáfora, cultura.
Nessa comunicação apresento reflexão específica, emergente da pesquisa de mestrado em andamento: as relações entre os processos cognitivos da mímeses e da metáfora, das quais surgem pistas para a compreensão da dinâmica de educação corporal e formação de uma cultura corporal nas comunidades de remanescentes quilombolas estudadas (Brotas, em Itatiba, e Praia Grande, em Iporanga).
Da experiência em campo:
* Um conjunto musical de crianças: um deles se senta sobre um toco de madeira (pés no chão, quadris bem pousados no toco, coluna ereta) – é o baterista de um instrumento formado por outros três tocos; há um guitarrista em pé e um sanfoneiro sentado.
* Uma pré-adolescente tímida se esconde da pesquisadora: enfia-se debaixo da mesa, como um camaleão que assim pretende sumir, alinhando a coluna a um dos pés da mesa.
* (Bira) Dava uma foice e uma enxada pa gente... (risos) ...e o que fizesse tinha que fazê também.[ii]
A mímeses é o modo primeiro de o homem se apropriar do mundo, compondo de forma fundamental sua educação, num ímpeto, aparentemente paradoxal, de se assemelhar e se diferenciar dos objetos do meio. “Se procurarmos a fórmula mais curta para definir ações miméticas, poderíamos dizer que esta seria fazer o mundo mais uma vez. Este fazer tem um lado simbólico e um material, um prático e um corporal.” (GEBAUER, 2004: 14, grifo meu).
Marcel Mauss destaca a capacidade humana de transmitir suas “técnicas corporais”, os atos eficazes e tradicionais do corpo, o que caracteriza a tradição. “O que se passa é uma imitação prestigiosa. A criança, como o adulto, imita atos bem-sucedidos que ela viu ser efetuados por pessoas nas quais confia e que têm autoridade sobre ela.” (MAUSS, 2003: 405). Na contemporaneidade, a imitação pôde ser vista como um fenômeno de raízes biológicas (BLACKING, 1977; KATZ, 2005), uma parte fundamental dos processos de construção de padrões corporais e de conhecimentos, independente do ensino formal ou da oralidade. Isso significa, como sugere John Dawsey, que, na constante exploração da mímeses, o ser humano também imita os atos não prestigiosos de outros corpos, o que pode ser observado explicitamente no caso da criança de primeira infância que realiza as primeiras imitações como explorações sensório-motoras. De modo que: “A aquisição do hábito é sim a apreensão de uma significação, mas é a apreensão motora de uma significação motora.” (MERLEAU-PONTY, 1999:193). Na construção de movimentos ao longo da vida, “... a informação que chega se torna corpo em negociação com as informações que lhe antecederam naquele corpo.” (KATZ, 2005: 109). Nessa negociação e modelagem contínua, cada corpo construirá mapas e padrões singulares, entretanto, estará disponível ao corpo dos novos (ARENDT, 1979) determinado repertório corporal construído antes de sua chegada. Essa cultura corporal condiciona a formação do repertório da criança em qualquer dos exemplos citados anteriormente. Portanto, o corpo que emergirá após os primeiros anos de vida de uma criança dos grupos estudados, e os sentidos por ele elaborados, não são passíveis de uma significação direta: de uma conexão direta com a imitação de certo padrão de movimento ou ação do adulto, mas de um processo de assimilação e invenção léxica, cujo princípio está na singularidade de cada corpo que interage com o ambiente e a cultura corporal de sua comunidade.
Uma das acepções para metáfora é a utilização de expressão em sentido figurado, consistindo “...na transferência de uma palavra para um âmbito semântico que não é o do objeto que ela designa, e que se fundamenta numa relação de semelhança subentendida entre o sentido próprio e o figurativo.” (FERREIRA, 1986: 1126 - grifo meu).
Johnson e Lakoff (2002) investigam o modo como conceitualizamos o mundo por meio de metáforas e como estas são emergentes de nossa experiência corporal, deslocando o modo de experienciar humano, de uma apreensão unívoca de objetos e circunstâncias para a operação com múltiplas metáforas inconsistentes na relação com o mundo.
Nesse contexto, sugiro: o conceito de mímeses como ímpeto inato de reprodução perfeita de algo que é mimetizado dialoga com o conceito de metáfora. Os dois processos compõem passos praticamente simultâneos no trânsito intenso entre “o dentro e o fora do corpo”. As crianças do conjunto musical citado, simultaneamente, o imitam (tentam reproduzi-lo) e realizam uma metáfora do conjunto musical (ao realizarem deslocamentos: de uma experiência auditiva do aqui-e-agora para seu corpo, ao ressignificarem objetos do espaço ou partes do corpo). Nas lacunas da imitação surge a representação metafórica, o deslocamento de objetos e sentidos, como solução criativa a um problema concreto surgido na interação do ser com o ambiente. A busca dessas soluções, envolvendo mímeses e metáforas, leva a repensar a categorização que separa o pensamento racional e o pensamento artístico. O ser humano, portanto, exercita cotidianamente o pensamento metafórico, pertinente no processo de criação artística. A capacidade de elaborar metáforas, presente desde a primeira infância, permanece até a vida adulta, sendo o substrato sobre o qual o ser humano opera sobre o mundo e o modo como ele faz surgir um mundo (KATZ, 2005). Na interação entre mímeses e metáfora, se dá o movimento complexo entre identificação e aprendizado da criança em relação ao adulto e, simultaneamente, a diferenciação, a experiência de alteridade na síntese de movimento singular e metafórica que emergirá na sua execução.
O espaço é outro eixo fundamental na compreensão dos processos estudados, por sua natureza de contexto no qual o ser humano interage e experiencia o mundo. Tal contexto não é um pano de fundo sobre o qual pousam as vidas que observo em campo, mas é um elemento constitutivo da interação presente (GREINER, 2005) e causador de perturbações e estímulos que fazem emergir estados corporais e novos conhecimentos (MATURANA & VARELA, 2001).
Em Praia Grande, por exemplo, esse contexto é muito peculiar, já que a comunidade se situa em território de Mata Atlântica, alterado apenas pela interação das gerações de moradores com o espaço. Os modos de construção se alternam entre o pau-a-pique e as casas de madeira, com as cozinhas de fogão a lenha e banheiros no terreiro. Há uma contaminação entre o meio ambiente e a organização do espaço construído pelos moradores. A terra da mata e a terra das casas ou dos pisos; a diversidade de microclimas e os diferentes nichos organizados no espaço (cozinha, banheiro, casa, horta, casa de ferramentas); uma espécie de correspondência ordena o ecossistema como um todo. O espaço interior da casa também reflete essa relação: nas sacas de cereais colhidos e armazenados nos cômodos da casa, nos apas e peneiras penduradas na parede utilitariamente, mas compondo uma “decoração”, ao lado dos calendários, imagens de santos, paneleiros. O trabalho na terra modela o corpo e define a educação corporal da comunidade, assim como as tecnologias dele derivadas: pilões, “tráfegos de farinha”, peneiras. Costumes, padrões de organização, limpeza e beleza emergem do tipo de convivência específica que foi gerada na relação histórica entre esse espaço físico e seus moradores.
Assim, emergem hipóteses: 1)a conduta mimética é a condição para os processos de identificação e diferenciação, construção de metáforas, personalidade e alteridade; 2) essa cultura corporal é construída intrinsecamente pela interação com o espaço físico e se desdobra no modo de pensar e ordenar o espaço da casa, do terreiro, das roças e por fim de pensar o mundo.
A delimitação de uma cultura corporal, mais uma vez, não pode ser justificada de modo direto, mas é parte de uma seqüência de sínteses, espelhamentos, reelaborações realizadas ao longo de gerações e atualizadas em cada ação dos moradores atuais. À semelhança do que ocorre com os artistas da performance: no instante em que acontecem as ações, que perpetuam certa tradição ou a alteram, há uma ambivalência entre o repertório de toda uma vida ou de tantas gerações e “...o modo como o fenômeno se dá a ver naquele instante.” (GREINER, 2005: 115)
Assim surge uma “transmissão” da experiência entre gerações que não implica em reprodução direta, mas numa memória corporal experienciada por meio da modelagem corporal e constituída na relação com o espaço concreto da comunidade. Ou seja, nas comunidades estudadas e, acredito, em qualquer sociedade humana considerada, há uma educação corporal subterrânea ou explícita, formal ou não, que é a raiz profunda da cultura. Enfatizar que a memória e a educação humanas são incorporadas (embodied) e compreender os impactos dessa afirmação ainda é parte de meus objetivos na pesquisa de mestrado a ser finalizada.
BIBLIOGRAFIA
ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. SP: Editora Perspectiva, 1979.
BLACKING, John(org.). The Anthropology of the Body. London, New York and San Francisco: Academic Press, 1977.
DAMÁSIO, António. O Mistério da Consciência, SP: Cia. das Letras, 2000. Apêndice, p.401-423.
DAWSEY, John. Victor Turner e antropologia da experiência. Cadernos de Campo (São Paulo), 2005, ano 14, no.13, p.163-176.
GREINER, C. O Corpo – pistas para estudos indisciplinares. SP: Annablume, 2005.
LAKOFF, George e JOHNSON, Mark. Metáforas da Vida Cotidiana, São Paulo: Educ, 2002.
KATZ, Helena (org.). Um, dois, três. A dança é o pensamento do corpo. BH: FID Editorial/Helena Katz, 2005.
MATURANA, H. & VARELA, F. A Árvore do Conhecimento. SP:Palas Athena, 2001.
MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. SP: Cosac&Naif, 2003.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. SP: Martins Fontes, 1999.
Nenhum comentário:
Postar um comentário